CABO VITÓRIO
STF MARCA JULGAMENTO DA CÚPULA DA PMDF POR OMISSÃO NO 8 DE JANEIRO — MAS O CORONEL QUE ESCOLTOU MANIFESTANTES ARMADOS CONTINUA INTOCADO
STF julga cúpula da PMDF, mas o homem do relatório que avisou e não agiu segue livre
Por que o coronel que subiu no carro de som para chamar de “democráticos” os manifestantes que gritavam “vamos quebrar tudo” — e os conduziu até a Esplanada, onde de fato quebraram tudo — continua impune?O Supremo Tribunal Federal marcou para o período de 28 de novembro a 5 de dezembro o julgamento, em plenário virtual, dos sete oficiais que integravam a cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal durante os ataques de 8 de janeiro.
Mas entre os nomes que serão analisados não aparece o do coronel Edvã de Oliveira Sousa — o mesmo que assinou um relatório interno reconhecendo que manifestantes gritavam “vamos quebrar tudo” enquanto os orientou e escoltou até a Esplanada.
A pergunta que ecoa é simples: por que o oficial que admitiu ter visto e deixado acontecer não responde por nada?
🟥 O JULGAMENTO NO STF
🧾 O julgamento está marcado: a cúpula vai ao banco dos réus
O Supremo Tribunal Federal marcou para o período de 28 de novembro a 5 de dezembro o julgamento, em plenário virtual, da cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal, acusada de omissão dolosa nos ataques de 8 de janeiro de 2023 — data que manchou de vez a imagem da segurança pública em Brasília.
O processo, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes e julgado pela Primeira Turma do STF, colocará no banco dos réus os nomes mais altos da Polícia Militar do Distrito Federal à época dos ataques. Entre eles:

A Procuradoria-Geral da República sustenta que todos sabiam do risco e da mobilização golpista, mas nada fizeram.
E é justamente aí que nasce a contradição: se o STF vai julgar quem “sabia e se omitiu”, por que o coronel Edvã de Oliveira Sousa — que, apesar de ter registrado por escrito que os manifestantes gritavam “vamos quebrar tudo”, ainda subiu em um carro de som para chamá-los de “democráticos” e os conduziu até a Esplanada, onde de fato quebraram tudo — continua fora da lista de réus?
⚖️ As acusações e o risco de perda de posto
Segundo a denúncia da PGR, os oficiais são acusados de omissão dolosa, prevaricação e conivência com crimes contra o Estado Democrático de Direito. A peça descreve que o alto-comando da PMDF “deliberadamente deixou de agir”, permitindo que as sedes dos Três Poderes fossem invadidas, depredadas e incendiadas.
Nos autos, há comunicações internas, mensagens e ordens de comando que, segundo o MPF, revelam uma paralisia intencional. Um dos trechos cita que “a estrutura da PMDF foi mobilizada para observar, não para impedir”, reforçando que o planejamento operacional foi desfeito ou ignorado nas horas críticas.

O julgamento no STF pode levar à perda do posto e da patente dos condenados — a punição máxima dentro das forças militares estaduais. A decisão será simbólica: o tribunal decidirá se a omissão é tão grave quanto a ação.
Enquanto isso, o coronel que não só observou, mas escoltou manifestantes armados segue no anonimato confortável de quem nunca foi sequer citado.
E aí, quem protege o protetor dos “manifestantes” do 8 de janeiro?
🟥 O RELATÓRIO DE EDVÃ: O FIO SOLTO DA HISTÓRIA
🧾 O documento que o próprio Edvã assinou
O nome do coronel Edvã de Oliveira Sousa não aparece entre os réus do 8 de Janeiro, mas seu nome está em um papel que fala mais do que muitos depoimentos.
Em 11 de janeiro de 2024, três dias após o ataque, Edvã assinou o Relatório nº 1/2023–PMDF/CPTRAN/SAD/CH, no qual descreve — com frieza burocrática — o que testemunhou na condução dos manifestantes rumo à Esplanada dos Ministérios.
No documento, o coronel reconhece que o grupo, formado por apoiadores radicais do ex-presidente Jair Bolsonaro, gritava “vamos quebrar tudo” e exibia comportamento hostil.
Afirma também que havia pessoas armadas entre os manifestantes e que, em determinado momento, um policial teve seu carregador furtado, contendo 18 munições, durante o deslocamento.
Apesar disso, em vez de interromper o trajeto ou ordenar reforço, o relatório registra que o comboio foi “acompanhado” por Edvã até o destino final — decisão que, na prática, deu cobertura institucional à marcha.
O texto ainda revela que Edvã “orientou” o grupo sobre as faixas de trânsito e restrições de veículos, reconhecendo que o percurso havia sido “definido pelos próprios manifestantes”.
Ou seja: o próprio coronel admitiu por escrito que tinha ciência da intenção de depredar, confirmou que havia armas e tensão evidente — e mesmo assim autorizou o avanço, tomando a decisão de descer com os manifestantes sem sequer comunicar o Departamento de Operações da PMDF.
Um documento que, se viesse de um praça, teria sido suficiente para prisão, exoneração e manchete. Mas vindo de um coronel, virou apenas mais um papel esquecido na gaveta da impunidade.
⚖️ O oficial que viu, narrou e segue impune mesmo após a confissão
Se o relatório de Edvã fosse lido sem assinatura, pareceria confissão. Ele descreve a iminência do caos, reconhece o comportamento criminoso e admite que conduziu o grupo até o ponto de destruição.
Mas o mais espantoso é o que veio depois: nada. Nenhum processo disciplinar, nenhuma sindicância, nenhuma linha sequer em boletim interno.
Enquanto coronéis são levados ao banco dos réus por “omissão”, Edvã — que viu, narrou e legitimou o ato — segue intacto, como se estivesse acima da própria corporação.
Nem a Corregedoria, nem a Secretaria de Segurança, nem o Comando-Geral se manifestaram sobre sua conduta. O mesmo homem que chamou de “democrática” uma manifestação armada permanece em atividade, sem sequer um parecer de advertência.
Mais do que omissão, o caso escancara a seletividade dentro da PMDF:
• Praças são punidos por postar críticas ou por faltar a um evento cerimonial;
• Oficiais podem relatar, escoltar e exaltar quem destruiu as sedes dos Três Poderes — e continuar como se nada tivesse acontecido.
Esse silêncio institucional é tão eloquente quanto o relatório que Edvã escreveu. Ele mostra que, na hierarquia da PMDF, há quem sirva à disciplina e há quem seja servido por ela.
Enquanto uns respondem por não agir, Edvã escreveu o roteiro do desastre, subiu no carro de som para aplaudir — e depois foi dormir tranquilo. E até hoje, continua ali, como se o 8 de janeiro tivesse sido apenas mais uma operação de trânsito.

🟥 CONTRADIÇÕES E PESOS DIFERENTES
O processo que será julgado pelo Supremo Tribunal Federal parte da tese central apresentada pela Procuradoria-Geral da República: os oficiais da PMDF tinham pleno conhecimento do risco, dispunham de meios para contê-lo e, ainda assim, permaneceram inertes. Segundo a denúncia, essa omissão deliberada foi decisiva para permitir o avanço da multidão que destruiu as sedes dos Três Poderes.
Por essa razão, sete oficiais foram presos preventivamente e afastados das funções logo após os ataques. Tornaram-se símbolos da omissão que o Supremo agora pretende julgar.
Mas há um ponto que a própria acusação evita encarar: o coronel Edvã de Oliveira Sousa foi o responsável por coordenar o deslocamento dos manifestantes, orientou o trajeto e chegou a subir em um carro de som para qualificar o ato como “democrático”. Sua omissão ativa — a escolha de não intervir enquanto conduzia o grupo — foi o elemento que permitiu o avanço até a Esplanada dos Ministérios. E, mesmo assim, seu nome está ausente da lista de réus.
No próprio relatório que assinou, Edvã detalha que o grupo gritava “vamos quebrar tudo”, exibia armas e chegou a furtar o carregador de um policial. Mesmo diante disso, manteve o acompanhamento e conduziu o cortejo até o centro do poder nacional. O texto é frio, quase burocrático, mas revela o essencial: o oficial sabia do risco, reconheceu o perigo e decidiu seguir.

O documento que poderia servir como prova da omissão acabou virando escudo para seu autor. Enquanto outros oficiais respondem por não agir, o homem que descreveu e acompanhou a destruição segue intocado — protegido pelo próprio silêncio da acusação.
🟥 SILÊNCIO E RESPONSABILIDADE
O silêncio no caso de Edvã não é casual. É método. A Polícia Militar do Distrito Federal não apenas deixou de punir ou investigar, mas agora tenta apagar o passado. Documentos e registros sobre oficiais que atuaram no 8 de janeiro passaram a ser ocultados sob a justificativa de “proteção de dados pessoais”. O mesmo Estado que deveria esclarecer os fatos escolheu enterrar documentos e blindar nomes.
Essa política de esquecimento é o instrumento mais eficaz da impunidade. Ao esconder relatórios e restringir informações, a PMDF protege quem realmente deveria ser cobrado e, ao mesmo tempo, impede que a inocência de outros venha à tona.
O Governo do Distrito Federal e a Secretaria de Segurança Pública seguem calados — nenhuma apuração, nenhuma cobrança, nenhuma resposta. O silêncio deixou de ser omissão e passou a ser método de governo.
O caso de Edvã é o retrato mais nítido desse pacto de conveniência. Ele mostra como o atual Governo do Distrito Federal e o comando da PMDF escolhem quem deve responder e quem deve ser poupado. Há coronéis sendo punidos, mas apenas os que se tornaram incômodos. Outros, mais próximos do poder, são preservados pelo silêncio e pela falta de transparência.
O que deveria ser um processo de responsabilização virou um filtro político, onde a verdade é moldada conforme a conveniência de quem ainda está no comando.
🟥 CONTEXTO E CONSEQUÊNCIAS
O episódio envolvendo Edvã deixou a gestão da segurança pública do Distrito Federal exposta. Mostrou como o governo perdeu o controle da narrativa e permitiu que a própria PMDF administrasse seus erros em silêncio. Nenhuma apuração real foi aberta, e o comando atual tenta passar a impressão de que o problema foi superado.
Dentro da corporação, o efeito é corrosivo. A tropa sente que a hierarquia serve mais para proteger do que para orientar. O comando, por sua vez, age como se a confiança fosse automática, esquecendo que autoridade sem credibilidade é só aparência.
A omissão do GDF e da Secretaria de Segurança não poupou a imagem da polícia — apenas aprofundou o desgaste. O tratamento dado a Edvã virou símbolo de uma administração que escolheu preservar nomes em vez de preservar a instituição.
No fim, o 8 de janeiro não destruiu só os prédios da República — destruiu a credibilidade de quem jurou defendê-la.
🟥 QUANDO A HIERARQUIA VIRA ESCUDO
Quando a farda serve para proteger uns e punir outros, o problema não é a tropa — é o topo.
E enquanto uns pagam por omissões que não cometeram, o coronel que viu, escoltou e relatou a destruição continua onde sempre esteve: acima da lei.









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