Ser professor é resistir todos os dias
Comecei minha vida profissional como professor de Química, lecionando em muitas escolas, públicas e privadas, e conhecendo de perto a realidade da educação brasileira em suas diferentes formas.
No Distrito Federal, quase 97% dos educadores já presenciaram algum tipo de agressão. São profissionais que dedicam a vida ao ensino, mas que muitas vezes recebem desrespeito, descaso e falta de reconhecimento. O problema vai além do salário: é sobre dignidade, segurança e valorização. Não é justo que quem forma todas as outras profissões precise ensinar com medo ou se preocupar em pagar as contas no fim do mês.

Neste ano, os professores do DF entraram em greve, não por comodismo, mas por necessidade. Lutavam por reajuste, respeito e condições melhores de trabalho, incluindo: garantia de salário justo, melhoria nas condições das escolas, pagamento de gratificações e direitos atrasados, respeito aos aposentados e suporte para desenvolvimento profissional. Em troca, enfrentaram corte de ponto, ameaças de punição e pressão judicial enquanto tentavam ser ouvidos. Foram 23 dias de paralisação, e o que se conquistou ainda é pouco diante da magnitude da luta. Os professores saíram com promessas de melhorias para o futuro, mas com o bolso vazio, o cansaço dobrado e a sensação de que lutar por direitos virou crime. Quem é professor sabe: ninguém quer deixar aluno sem aula, mas chega um momento em que a sala de aula também precisa ser ouvida.
Ser professor é muito mais do que ensinar conteúdo. É enxergar potencial onde o mundo vê problema. É carregar na mochila não só livros, mas também ansiedade, medo e esperança. É ter que sorrir quando tudo parece desmoronar. Conheço professores que choram dentro do carro antes de entrar na escola, outros que fazem vaquinha para comprar material de laboratório. E mesmo assim, no outro dia, estão lá, pontuais e dedicados, acreditando que podem mudar a vida de alguém. Isso não é fraqueza, é heroísmo.
A educação só vai mudar quando o professor for tratado como base, e não como peso. Não há futuro possível sem valorização do magistério. Não há transformação sem garantir salário justo, segurança e condições dignas de trabalho. Investir em educação não é gasto, é garantia de um país melhor. Mas ainda tratamos quem ensina como se fosse o último da fila.
Foram anos em sala de aula que me mostraram o poder do conhecimento e o sofrimento silencioso de quem dedica a vida a ensinar. Vi o brilho no olhar de quem entende uma fórmula e também a tristeza de quem se sente esquecido. Por isso, minha luta é por uma educação que respeite o professor, que o proteja, que o valorize e que não transforme o ato de ensinar em sacrifício. Neste 15 de outubro, deixo minha homenagem e meu compromisso: lutar para que nenhum professor precise escolher entre ensinar com amor e sobreviver com dignidade. Ser professor é resistir, e resistir também é ensinar.




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