CABO VITÓRIO
COLÉGIO NAVAL: ASSÉDIO CONTRA ALUNAS, PUNIÇÃO BRANDA E UM SISTEMA QUE TENTOU ESCONDER A VERDADE
O que começou como uma conquista histórica virou um pesadelo abafado pela hierarquia: assédio, omissão e silêncio institucional dentro do Colégio Naval.
Capitão de Mar e Guerra José Fernando Barboza dos Santos, então comandante do Colégio Naval — tentou silenciar denúncias de assédio, intimidou famílias e blindou o agressor.🔥 Colégio Naval: o assédio começou na primeira turma de mulheres — e a Marinha tentou esconder tudo
Em 2023, o Colégio Naval da Marinha do Brasil, em Angra dos Reis (RJ), recebeu pela primeira vez alunas em sua formação militar. Doze jovens ingressaram como pioneiras, marcando um avanço histórico na Marinha do Brasil. Mas o que deveria simbolizar inclusão logo revelou outra face: em 2024, no segundo ano da turma inaugural, surgiram denúncias de assédio sexual contra um dos instrutores.
"Jovens entre 15 e 17 anos foram expostas ao assédio dentro de uma escola militar da Marinha — por um oficial que deveria ensiná-las, não humilhá-las."
Ao tomar ciência dos fatos, a Marinha não demonstrou qualquer intenção de apurar o caso com seriedade. A prioridade não foi proteger as estudantes — foi proteger a instituição. Diante da revolta de pais e responsáveis, o comando do Colégio Naval tentou conter a crise: convocou uma reunião sigilosa, sem registro público, com o objetivo claro de intimidar as famílias e evitar que o caso ganhasse repercussão externa.


Mas os pais não cederam. Apesar da tentativa de silenciamento, as denúncias vieram à tona e escancararam o comportamento do 2º Tenente RM2-T Thalles Faleiro Delfim, instrutor de Física no Colégio Naval.
2º Tenente RM2-T Thalles Faleiro Delfim, ex-instrutor de Física no Colégio Naval
De acordo com os relatos assinados por dez alunas, o oficial fazia piadas de cunho sexual em sala de aula — como “Você cospe ou engole?” e “Você segura e eu balanço” — além de insinuações sobre a aparência de oficiais mulheres e gestos obscenos durante o expediente. Em uma ocasião, chegou a levantar a blusa em sala, expondo o próprio corpo para guardar o celular na cintura.

A postura era recorrente e afetava tanto alunas quanto alunos, com falas libidinosas, linguagem corporal inadequada e constrangimento generalizado.
⚓ Sindicância forçada: o resultado foi à Marinha — serviu ao oficial agressor, não às vítimas
Vendo que não conseguiria manter o caso abafado — e diante da gravidade dos relatos —, em 3 de julho de 2024, o ainda comandante do Colégio Naval, Capitão de Mar e Guerra José Fernando Barboza dos Santos, se viu forçado a instaurar uma sindicância. Mas o objetivo não era apurar com rigor. Era controlar os danos.
Comandante do Colégio Naval, Capitão de Mar e Guerra José Fernando Barboza dos Santos
Durante o processo, dez alunas prestaram depoimento e escancararam o padrão de assédio praticado pelo 2º Tenente (RM2-T) Thalles Faleiro Delfim. Outros alunos, inclusive homens, confirmaram as falas sobre vibradores, as menções à própria vida sexual e os gestos obscenos feitos em sala de aula. Era um comportamento sistemático — e todos sabiam.

A própria sindicância concluiu que o tenente:
Violou o Estatuto dos Militares (Lei 6.880/1980);
Cometeu contravenções disciplinares graves (RDM, art. 7º, incisos I e XXII);
Causou desconforto, frustração e violou a dignidade das alunas;
Comprometeu o ambiente de ensino com conduta “eticamente reprovável e incompatível com a função docente”.
E a punição? Três dias de prisão simples. Três. Dias.
A justificativa? O agressor ainda estava em “período de adaptação”, com menos de seis meses de serviço.

Para completar a vergonha institucional, ele foi promovido.
Sim: no mesmo ano em que assediou alunas, foi reconhecido oficialmente pela Marinha do Brasil. Segundo a Portaria nº 1.083, de 4 de setembro de 2024, publicada no Diário Oficial da União em 17 de setembro de 2024, o 2º Tenente (RM2-T) Thalles Faleiro Delfim foi promovido ao posto de Primeiro-Tenente da Reserva de 2ª Classe da Marinha, com base na conclusão do Estágio de Serviço Técnico (EST).

A Marinha reconheceu o assédio — mas optou por proteger o agressor. Aplicou uma pena branda como quem passa pano no sangue e diz que está limpo. Quem ousou falar — foi silenciado. Quem abusou — foi acobertado. E, meses depois, ainda foi promovido.
“Só depois da pressão das próprias alunas, que formalizaram as queixas por escrito, a sindicância foi instaurada — mas o comando já havia sinalizado de que lado estava: do silêncio.”
A farda venceu. A justiça perdeu.
📣 3. O silêncio rompido: caso chega ao Conselho de Direitos Humanos do DF
Em 6 de março de 2025, o que a Marinha tentou esconder veio à tona — e fora dos seus muros. Durante reunião do Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, o advogado e jornalista Adriano Carvalho da Rocha levou o caso ao plenário.

Ex-militar e defensor de direitos humanos, Adriano já havia se tornado alvo de perseguição por expor abusos dentro das Forças Armadas — e agora era novamente atacado por dar visibilidade ao escândalo do Colégio Naval.
“Segundo as estudantes, o militar utilizava o ambiente de sala de aula para fazer piadas de cunho sexual, comentários sobre sua vida íntima e gestos considerados obscenos, criando um clima de constrangimento e intimidação. As denúncias foram registradas por escrito, assinadas pelas alunas e entregues à direção do colégio.”
Em sua fala, Adriano denunciou:
Que o Colégio Naval tentou silenciar o caso, convocando os pais para uma reunião sem registro, com o objetivo de impedir repercussão pública;
Que dez alunas formalizaram as denúncias por escrito — e uma delas, abalada emocionalmente, foi desligada da unidade após os episódios, apresentando distúrbios;
Que a sindicância interna instaurada pelo comandante da unidade teve como foco preservar a imagem da Marinha, e não proteger as vítimas;
Que há um padrão de tortura psicológica, humilhação e práticas abusivas na rotina militar estudantil da corporação.
Foi só após a repercussão provocada por Adriano Rocha — advogado, jornalista e alvo de perseguição por expor o caso — que a Marinha se viu forçada a dar uma resposta. Em 18 de março de 2025, o 2º Tenente Thalles Faleiro Delfim foi licenciado ex officio, “por conveniência do serviço”, conforme a Portaria nº 277/Com1ºDN. A decisão, porém, só foi publicada no Diário Oficial da União em 28 de abril — mais de um mês depois, numa tentativa óbvia de abafar o caso.

Mas o gesto foi por medo da repercussão, não por justiça — e poupou justamente a cúpula que protegeu o assediador. O então comandante do Colégio Naval, Capitão de Mar e Guerra José Fernando Barboza dos Santos, que tentou calar os pais e enterrar as denúncias, seguiu blindado.
A punição ficou restrita ao nome exposto. O sistema, mais uma vez, saiu ileso.
🚨 4. Não foi um caso isolado — foi um sistema operando para silenciar vítimas
O que esse caso escancara é o seguinte: quando meninas entram pela primeira vez numa escola militar, encontram o machismo fardado e institucionalizado. Quando tentam reagir, o sistema não escuta — ele se protege.
O Colégio Naval teve:
Denúncias formais de 10 alunas contra um instrutor;
Confirmação dos abusos em sindicância;
Uma punição simbólica de 3 dias;
E uma reunião sigilosa com os pais para conter a repercussão.
A resposta só veio porque um advogado e jornalista denunciou publicamente. Foi o Conselho de Direitos Humanos que precisou agir — não a Marinha.


E o mais grave: não foi o único caso.
Recentemente, um segundo episódio chegou ao conhecimento da reportagem. A aluna VFP também foi vítima de assédio sexual dentro da instituição. O acusado: o Capitão-Tenente Nicácio Sátiro de Araújo Filho, filho do Capitão de Mar e Guerra Nicácio Sátiro de Araújo — ambos da Marinha.
A denúncia foi levada ao conhecimento de um oficial superior, e o Capitão-Tenente acabou transferido de sua Organização Militar. Mas, até o momento, não há confirmação da instauração de Inquérito Policial Militar nem de qualquer outro procedimento disciplinar. O risco é o de sempre: mais um caso sendo abafado.
Enquanto a estrutura militar continuar funcionando para blindar seus oficiais — e não proteger suas alunas — o Colégio Naval seguirá sendo um campo minado para meninas que ousam estudar onde antes só havia homens.





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