CABO VITÓRIO
ADRIANO ROCHA, O NOVO ALMIRANTE NEGRO: A MARINHA QUE QUER SILENCIAR QUEM DENUNCIA
De João Cândido a 2025, a história se repete: quem denuncia abusos vira inimigo. A Marinha processa Adriano Rocha e tenta calar até quem o defende.
Denúncia, perseguição e censura: O novo capítulo de um velho autoritarismo da Marinha contra quem ousa expor suas ilegalidades.📰 O PREÇO DE DEFENDER A HUMANIDADE É A PERSEGUIÇÃO — DE 1910 A 2025, A MARINHA CONTINUA QUERENDO APAGAR QUEM DENUNCIA
O que a Marinha fez com João Cândido em 1910, tenta repetir agora com Adriano Rocha em 2025. Quando um homem denuncia abusos dentro da corporação, a resposta não é escuta. É retaliação. Não foi diferente com o Almirante Negro — perseguido, preso, apagado da história após denunciar tortura e castigo físico na Revolta da Chibata. E não está sendo diferente agora.

Adriano Rocha, advogado, jornalista e ex-militar, tornou-se alvo por denunciar violações de direitos humanos dentro da Marinha. Apontou perseguição, tortura, crimes sexuais e omissão institucional. Não foi ouvido. Foi punido. E agora, em plena democracia, enfrenta o mesmo destino que a força naval impôs a outros heróis — como João Cândido, que, mesmo após ser expulso, foi perseguido por toda a vida, tratado como inimigo por ter ousado exigir dignidade. Por arrastamento, tentam impor a mim o mesmo tratamento.
Após toda a perseguição, mais de um século depois, João Cândido entrou para o Livro dos Heróis da Pátria — não porque a Marinha o reconheceu, mas apesar de tudo que ela fez para apagá-lo.
Mesmo depois da abolição da escravatura, em 1888, a Marinha manteve o chicote como ferramenta de comando. Para os praças — majoritariamente negros, pobres e sem voz — a escravidão não terminou. Apenas mudou de nome. Trocaram a corrente pela farda, mas o tratamento seguiu o mesmo: obediência cega, punição brutal, e o corpo como alvo.
Foi necessário o surgimento de um herói para romper o ciclo da humilhação. João Cândido, filho de ex-escravizados, levantou a voz contra os açoites e liderou seus irmãos de farda na Revolta da Chibata. Enfrentou não só o alto comando, mas o silêncio cúmplice do país. Pagou com a liberdade, com a saúde, com a própria história — mas jamais se curvou.
Mas a Marinha nada aprendeu. Quer repetir, no presente, a mesma violência do passado — agora contra o novo Almirante Negro.
"De João Cândido a Adriano Rocha — o inimigo sempre foi quem denuncia."
Hoje, mesmo após a redemocratização, a Marinha segue tratando a denúncia como crime e a coragem como insubordinação. Foi a única das Forças que ensaiou um levante contra o Estado Democrático — e continua a usar sua estrutura para perseguir quem ousa romper o silêncio. Com Adriano Rocha, tenta repetir o castigo de João Cândido: humilhação pública, isolamento institucional, tentativa de apagar sua existência pela força do medo.
“Mais de um século depois, a Marinha do Brasil parece repetir o roteiro: transformar um denunciador em inimigo — e, sem querer, forjar um novo herói. Será Adriano Rocha o novo Almirante Negro? As semelhanças são brutais. A perseguição, o silêncio, a tentativa de apagar. Mas também são semelhantes a coragem, a denúncia, e a recusa em abaixar a cabeça.”
Agora, no lugar dos porões, usam petições. No lugar do chicote, acionam a Advocacia-Geral da União. Foi a AGU, a pedido da Marinha, que ajuizou uma ação contra Adriano Rocha — não por ter mentido, mas por ter falado demais. O objetivo? Obrigar o jornalista a apagar vídeos em que denuncia abusos e perseguições.
A petição, assinada por advogados da União, não rebate os fatos centrais, não contesta as violações narradas. O incômodo não é com a mentira — é com a verdade que escapou do controle. A mesma lógica de 1910: quem expõe a chibata vira o problema.
A Marinha pode até ter aposentado o chicote, mas não abriu mão do castigo. Usa a estrutura do Estado para tentar calar quem incomoda. Com João Cândido, usaram a cadeia. Com Adriano, tentam usar o Judiciário. O alvo é o mesmo: silenciar. E o método continua sendo o medo.
A tentativa de silenciar não parou em Adriano. E é aí que o autoritarismo mostra sua face mais grotesca.
Nos autos do processo nº 0724582-77.2025.8.07.0001, em manifestação intitulada “Postagens do Réu Após a Ciência da Decisão”, assinada em 30 de junho de 2025, a Marinha — por meio da procuradora federal Sílvia Follain de Figueiredo Lins — escancara sua real intenção: não basta calar Adriano. Quer calar quem fala dele. Quer controlar o eco. Quer censurar o entorno. Quer punir o efeito — não só a causa.
Na petição, a Marinha chega ao delírio jurídico de exigir que Adriano Rocha me silencie — que “determine” que eu, que sequer sou parte na ação, apague um vídeo que publiquei. Como se isso fosse minimamente possível. Como se um jornalista tivesse autoridade sobre outro. Como se censura terceirizada tivesse amparo legal.
Não houve pedido direto contra mim. Não fui citado como parte. Não tive direito ao contraditório. Mas, mesmo assim, querem que meu conteúdo desapareça — como se bastasse mandar que Adriano me silencie.
A pergunta é simples: desde quando um jornalista pode mandar outro calar? Desde quando a AGU pode tentar me atingir por tabela, sem me ouvir, sem me garantir nenhum direito?
Sou jornalista independente. Fui ao local para apurar a denúncia — como manda a boa prática jornalística — e constatei que era verdadeira.
Não sou subordinado a Adriano Rocha, tampouco estou sujeito ao seu controle. Minha responsabilidade é com a Constituição, com a ética jornalística e com o dever de informar.
Perguntamos se havia algum fluxo, canal ou estrutura interna para esse tipo de apuração. A resposta foi clara: não existe nada.
E quando o tema é direitos humanos, a resposta institucional continua sendo a de sempre: isso não é assunto da Marinha.
A capitã de Mar e Guerra Viviane afirmou, em alto e bom som, diante da câmera, que a Marinha do Brasil não possui qualquer setor responsável por acolher denúncias de violações de direitos humanos.
O silêncio não se deu apenas no atendimento. É estrutural. A Marinha não se organiza para ouvir quem sofre abuso sob sua tutela.
O mais gritante: não fui o único a veicular sobre as perseguições sofridas por Adriano. O caso foi noticiado por grandes veículos — inclusive o Metrópoles. Mas contra eles, nada. Nenhuma petição. Nenhuma alfinetada. Nenhum “delete isso”. Só o comunicador independente é que vira alvo.
Porque é fácil atacar quem não tem grupo econômico por trás. É fácil mirar em quem não conta com assessoria jurídica milionária, com blindagem política, com apadrinhamento institucional. Fácil calar o pequeno. Difícil é encarar os grandes.
E isso a Marinha nunca fez. Nunca foi valente com quem tem poder. Sua história é de covardia seletiva: afronta os sem estrela, persegue os sem foro, pune os sem voz. Foi assim em 1910 com João Cândido, o Almirante Negro, que ousou levantar a cabeça — e pagou por isso com a vida arrasada. Agora, mais de um século depois, querem repetir o castigo com nova roupagem.
Não é Justiça. É perseguição com roupagem jurídica. Um recado autoritário: quem fala, apanha. Quem denuncia, vira réu. E quem divulga, é arrastado junto. É o velho chicote da Marinha — agora feito de papel timbrado e silêncio imposto.
A fúria da Marinha não quer apenas acorrentar Adriano — quer arrastar junto qualquer um que ouse expor seu DNA autoritário. Quem ilumina os porões vira inimigo.
A Marinha diz servir “à Pátria com honra”. Mas, neste caso, parece servir à covardia — com petição e com medo da denúncia.
Eles apagaram João Cândido da história — e falharam.
Tentam apagar Adriano Rocha — e também vão falhar.
Porque enquanto houver um só jornalista livre, um só cidadão disposto a denunciar,
a Marinha vai continuar sendo desafiada por aquilo que mais teme:
a verdade dita em voz alta.









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